'Jamais houve intenção de desrespeito', diz comissão de festa 'Deu a louca no morro' após críticas de 'racismo recreativo'
09/03/2026
(Foto: Reprodução) Estudantes de colégio tradicional no Recife fazem festa com tema 'Deu a Louca no Morro'
Após críticas de "racismo recreativo" e de reforço de estereótipos de pessoas negras e da periferia, a comissão responsável pela festa "Deu a Louca no Morro" afirmou que "jamais houve intenção de desrespeito". O evento foi organizado por concluintes do tradicional Colégio Damas, no Recife, que se manifestaram sobre o caso após a repercussão de vídeos da festa (veja nota mais abaixo).
As imagens, que circularam principalmente no Instagram, mostram adolescentes sugerindo “looks” para a festa. Entre os elementos exibidos aparecem camisas de times de futebol, colares dourados e óculos do tipo “juliet”.
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A polêmica ganhou força após uma publicação da jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Fabiana Moraes. Ela questionou a realização do evento e afirmou que, na festa, pessoas teriam se fantasiado de moradores de favelas e encostas, apontando o que chamou de “racismo recreativo”.
Segundo os organizadores, a festa foi uma iniciativa privada, realizada fora do ambiente escolar e sem qualquer vínculo institucional com o Colégio Damas. A comissão afirmou que a escola não participou da concepção, organização, planejamento, autorização, promoção ou divulgação do evento.
De acordo com a comissão, o evento não foi concebido como festa à fantasia e não teve como objetivo representar de forma caricatural ou depreciativa qualquer grupo social.
Os organizadores afirmam que a proposta foi apenas promover um momento de convivência entre estudantes, com referências estéticas associadas aos bailes de funk e ao universo do brega funk, descritos na nota como manifestações culturais reconhecidas da cultura popular recifense e da identidade urbana da cidade.
"[...] Jamais houve intenção de desrespeito, segregação ou menosprezo a qualquer pessoa ou grupo social. O propósito do evento foi apenas proporcionar um momento de confraternização, alegria e integração entre colegas, inspirado em referências culturais presentes no cotidiano da cidade do Recife, sem qualquer conotação discriminatória", diz o texto.
A nota também diz que não houve envolvimento de professores, coordenadores, gestores ou outros colaboradores da instituição, nem conhecimento prévio formal sobre a realização da festa.
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A comissão também afirmou que conceitos como racismo e discriminação devem ser tratados com responsabilidade no debate público e que interpretações precipitadas nas redes sociais podem gerar hostilidade moral e exposição indevida de adolescentes.
“Não houve, por parte da comissão de formatura, dos organizadores ou dos participantes, intenção de ridicularizar, inferiorizar, estigmatizar ou ofender pessoas, comunidades ou grupos socialmente vulnerabilizados”, diz o texto.
A nota pede ainda que o debate sobre o caso seja conduzido com serenidade e responsabilidade, evitando acusações consideradas pelos organizadores como incompatíveis com a natureza do evento.
Entenda o caso
Festa “Deu a Louca no Morro”, organizada por estudantes de colégio católico no Recife, gera críticas nas redes sociais.
Reprodução/Instagram
A festa “Deu a Louca no Morro”, organizada por comissões de formatura de estudantes do Colégio Damas, ganhou repercussão nas redes sociais após a circulação de vídeos do evento.
Nas imagens, adolescentes aparecem sugerindo “looks” para a festa, usando itens como camisas de times de futebol, colares dourados e óculos do tipo “juliet”.
Críticos do evento afirmaram que os figurinos reproduziam estereótipos associados a pessoas negras e moradores da periferia.
A deputada estadual Dani Portela (PSOL) foi uma das pessoas que criticaram o tema da festa e classificou o episódio como exemplo de racismo recreativo.
Procurado anteriormente, o Colégio Damas informou que não teve conhecimento prévio do evento e declarou que a festa foi organizada de forma privada por estudantes, sem vínculo com a instituição. Confira detalhes:
A instituição não teve conhecimento prévio da realização da festa;
A escola é uma instituição confessional católica que orienta suas atividades pelos valores do respeito, da dignidade humana, repudiando qualquer forma de discriminação, preconceito ou discurso de ódio;
Reconhece a importância e a sensibilidade do debate público sobre temas relacionados ao preconceito e ao racismo e reafirmamos nosso compromisso permanente com a formação ética, humana e cidadã;
Permanecem abertos ao diálogo construtivo e continuaremos trabalhando para promover um ambiente educacional pautado pelo respeito, pela empatia e pelos valores cristãos que norteiam a missão do Colégio Damas.
Resposta da comissão na íntegra
"Nos últimos dias, passaram a circular nas redes sociais publicações, comentários e interpretações a respeito de um evento denominado “Deu a Louca no Morro”, promovido em contexto privado por estudantes concluintes vinculados à Comissão de Formatura. Diante da repercussão gerada, entendemos ser necessário apresentar esclarecimentos objetivos, responsáveis e transparentes, a fim de restabelecer a correta compreensão dos fatos.
Em primeiro lugar, cumpre esclarecer, de forma inequívoca, que o referido evento não possuiu qualquer vínculo institucional com o Colégio Damas. Tratou-se de iniciativa estritamente privada, idealizada e realizada fora do ambiente escolar, sem participação da instituição de ensino em sua concepção, organização, planejamento, autorização, promoção ou divulgação. Do mesmo modo, não houve envolvimento de professores, coordenadores, gestores ou quaisquer colaboradores da escola, tampouco conhecimento prévio formal da realização da festa.
Também é importante registrar que o evento não foi concebido, anunciado ou estruturado como festa à fantasia, nem teve como propósito a representação caricatural, jocosa ou depreciativa de qualquer grupo social. A proposta consistiu, exclusivamente, em um momento de convivência entre estudantes, com referências estéticas ligadas aos bailes de funk e ao universo do brega funk, manifestação artística e cultural amplamente reconhecida como expressão legítima da cultura popular recifense e da identidade urbana local.
Diante de interpretações que passaram a ser difundidas no ambiente digital, impõe-se afirmar com absoluta clareza que não houve, por parte da Comissão de Formatura, dos organizadores ou dos participantes, intenção de ridicularizar, inferiorizar, estigmatizar ou ofender pessoas, comunidades ou grupos socialmente vulnerabilizados. Qualquer leitura nesse sentido não corresponde à finalidade do encontro nem ao espírito com que ele foi idealizado.
É preciso, nesse contexto, tratar com a devida responsabilidade conceitos jurídicos e sociais relevantes, especialmente aqueles relacionados à proteção de minorias, à igualdade, à não discriminação e ao enfrentamento do racismo. Tais categorias possuem elevada seriedade histórica, política e jurídica e, exatamente por isso, não devem ser mobilizadas de maneira precipitada, descontextualizada ou acusatória nas redes sociais, sobretudo quando isso contribui para a intensificação de ataques públicos, da hostilidade moral e da propagação de discursos de ódio entre adolescentes.
A utilização irrefletida de expressões graves, desvinculada da necessária análise do contexto, dos elementos concretos e da real intenção dos envolvidos, pode produzir efeito inverso ao da proteção social que tais conceitos buscam assegurar, convertendo o debate público em espaço de julgamento sumário, polarização e exposição indevida de jovens em processo de formação pessoal e cidadã. O combate a toda forma de preconceito exige seriedade, responsabilidade e compromisso com a verdade dos fatos, e não a simples reprodução de rótulos em ambiente digital.
A Comissão de Formatura reafirma, de maneira expressa, seu compromisso com os valores da dignidade da pessoa humana, do respeito, da pluralidade, da diversidade e da convivência democrática, repudiando toda forma de discriminação, intolerância, preconceito ou discurso de ódio. Esses princípios orientam a postura dos estudantes e constituem referências éticas indispensáveis à vida em sociedade.
Do mesmo modo, é importante destacar que a preservação desses valores também impõe cautela diante da rápida disseminação de narrativas nas redes sociais. Atribuições precipitadas de condutas ofensivas, sem a devida correspondência com os fatos, podem gerar consequências desproporcionais, inclusive com danos à honra, à imagem e à integridade emocional de adolescentes, os quais merecem proteção integral e tratamento compatível com sua condição peculiar de pessoas em desenvolvimento.
Reiteramos, portanto, que jamais houve intenção de desrespeito, segregação ou menosprezo a qualquer pessoa ou grupo social. O propósito do evento foi apenas proporcionar um momento de confraternização, alegria e integração entre colegas, inspirado em referências culturais presentes no cotidiano da cidade do Recife, sem qualquer conotação discriminatória.
Por fim, pedimos que o debate seja conduzido com serenidade, responsabilidade e compromisso com o contexto real dos fatos, evitando-se interpretações apressadas, acusações infundadas ou associações incompatíveis com a verdadeira natureza da iniciativa. O uso de conceitos sensíveis ligados à proteção de minorias deve sempre ocorrer com responsabilidade, precisamente para que não sejam convertidos, no espaço digital, em instrumentos de disseminação de animosidade, perseguição ou linchamento moral a adolescentes."
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