'Jardineira das florestas': documentário sobre a anta revela legado de conservação que começou no interior de SP
30/07/2026
(Foto: Reprodução) Documentário sobre a anta destaca legado de conservação iniciado no interior de SP
Considerada a “jardineira das florestas”, a anta (Tapirus terrestris) é um dos símbolos do Pontal do Paranapanema e agora ganha destaque nas telas em um documentário que leva o nome do animal. "Anta – O filme" será exibido gratuitamente neste sábado (1º), às 19h, no Clube Taquarussu, em Teodoro Sampaio (SP). Assista o trailer acima.
A produção chega ao público como uma obra que une ciência, cinema e educação ambiental, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a espécie e reforçar a importância da conservação da fauna brasileira.
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A escolha de Teodoro Sampaio para a primeira exibição aberta ao público tem um significado especial: foi no município que, há 30 anos, nasceu a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), vinculada ao Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), projeto dedicado à proteção da espécie.
A espécie, ameaçada de extinção, é o maior mamífero terrestre da América do Sul. A anta desempenha papel fundamental na regeneração de ecossistemas ao dispersar sementes pelas áreas onde circula.
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A anta brasileira é o maior mamífero terrestre da América do Sul
João Marcos Rosa
O documentário
Três décadas depois, o grupo responsável pelo início das pesquisas ampliou a atuação e passou a trabalhar em cinco biomas brasileiros. O documentário acompanha a trajetória de pesquisadores e voluntários dedicados à conservação da anta brasileira em diferentes regiões do país.
Dirigido pelo fotógrafo João Marcos Rosa e produzido pela NITRO Histórias Visuais, o longa tem como fio condutor o trabalho da pesquisadora Patrícia Medici, uma das principais referências mundiais nos estudos sobre a espécie.
A produção também apresenta a rotina de campo da equipe da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), incluindo o trabalho do assistente José Maria Aragão, conhecido como Zé, que atua no projeto desde a criação da iniciativa.
Ao g1, Patrícia, coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, do Instituto de Pesquisas Ecológicas, revelou quais foram os principais tópicos abordados no filme.
“A gente trabalha com esse bicho em cinco biomas principais: na Mata Atlântica, no Pantanal, Cerrado, Amazônia, e iniciando agora na Caatinga. Cada um desses biomas aqui no nosso país tem um contexto, tem um tipo de paisagem, tem um entorno socioeconômico, tem diferentes ameaças atuando sobre esse animal."
A ecologia é um dos principais eixos do documentário, que apresenta estudos sobre o comportamento da anta, incluindo o território percorrido pelo animal, os horários de maior atividade, a alimentação, a saúde e a diversidade genética da espécie.
Importância da anta
O Parque Estadual do Morro do Diabo, uma das principais áreas de Mata Atlântica remanescentes no interior paulista, se torna um ponto-chave na narrativa. Ao mesmo tempo, a região de Teodoro Sampaio é considerada bastante fragmentada, conforme a pesquisadora Patrícia.
“A principal ameaça para a anta ali é o fato de que esses animais vivem em fragmentos de florestas isolados uns dos outros, e a gente lida ali com esse contexto de pequeninas populações. Tem também a questão da caça e dos atropelamentos de anta na rodovia que cruza o parque. Essa é a realidade da Mata Atlântica”, pontuou.
Com 80 minutos de duração, o longa-metragem busca transmitir uma mensagem central: a importância da anta para o equilíbrio ambiental. Pesquisadores e toda a equipe envolvida na produção destacam o papel fundamental da espécie na conservação dos ecossistemas brasileiros.
“É um animal que consome muitos frutos da floresta. É um animal herbívoro, vegetariano, e 50%, 60% da dieta desse bicho são os frutos. É um bicho grande; a gente está falando ali de 200, 250 quilos. Então, são 6, 7, 8, 10 quilos de comida numa noite de busca por alimento.”
Conforme Patrícia, a anta desempenha um papel fundamental na dispersão de sementes. Ao se alimentar dos frutos, o animal ingere as sementes junto com a polpa e, após o processo digestivo, elimina esse material pelas fezes, espalhando-o pelas áreas por onde circula.
Entre as sementes dispersadas estão as de grande porte, principalmente de palmeiras, espécies importantes por sua capacidade de captura de carbono e por possuírem raízes profundas, que podem alcançar o lençol freático.
“Com isso, o animal vai levando essas sementes e, junto com elas, essa diversidade biológica para as diferentes partes desse habitat, plantando floresta, contribuindo para a formação de diversidade. A grande mensagem é que é um animal enormemente responsável pela busca de soluções para as mudanças climáticas de que a gente tem falado tanto e vai falar ainda mais no futuro próximo", analisou Patrícia.
Outra mensagem que o filme busca transmitir é a desconstrução do estereótipo associado à anta. No Brasil, o nome do animal é frequentemente usado de forma pejorativa.
“Outras pessoas associam esse bicho à falta de inteligência. O filme vem também com essa missão de cuidar disso, de fazer com que as pessoas assistam a esse filme, se apaixonem por esse animal, se apaixonem pela causa, se deem conta de que esse animal está longe de ser desprovido de inteligência, muito pelo contrário”, reforçou a coordenadora.
Documentário destaca legado de conservação da anta iniciado em Teodoro Sampaio (SP)
João Marcos Rosa
Para João Marcos Rosa, fotógrafo, jornalista, documentarista e diretor do documentário, o grande desafio na produção foi resgatar o “baú de memórias” produzido pela INCAB ao longo de 30 anos.
“Fazer com que essa trajetória pudesse fazer sentido temporalmente e também no que diz respeito ao objetivo do trabalho. A gente tentou trazer a origem do projeto, que nasce na região do Morro do Diabo, com a busca pela anta”, pontuou João.
Para “costurar” a narrativa e transformar os estudos em uma história acessível ao público, foram necessários três meses de pré-produção e quase um ano de gravações, realizadas entre março de 2025 e fevereiro de 2026, ao longo de seis expedições.
“Foi realmente uma jornada pelos biomas brasileiros; além de também ser um outro componente forte do filme. E em Teodoro Sampaio foi muito especial. Eu acho que essa foi a expedição mais marcante, na verdade, porque foi quando a gente promoveu o encontro, o reencontro da Patrícia com a equipe de origem do projeto”, continuou o diretor.
Isso porque Patrícia está à frente da iniciativa de preservação das antas e morou por quase 15 anos em Teodoro Sampaio.
“Voltar para Teodoro, para as raízes, para onde toda essa história foi parida, foi muito especial Sem dúvida nenhuma de que Morro do Diabo e Teodoro foi a parte mais gostosa de filmar e é a parte, na minha opinião, sem dar spoiler, é uma das partes mais bonitas do filme também”, descreveu Patrícia.
Documentário destaca legado de conservação da anta iniciado em Teodoro Sampaio (SP)
Raquel Alves
Os produtores ainda não têm previsão de quando o filme estará disponível nas plataformas digitais, pois o intuito é, neste primeiro momento, fazer exibições presenciais.
“Para que justamente as pessoas possam ali juntas refletir sobre a questão, possam assistir ao filme com atenção”, disse o diretor.
Depois de ser exibido em Teodoro Sampaio, o filme será levado ao Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O diretor do longa reforça que a produção está aberta a convites para fazer essas exibições em eventos, escolas e universidades. Outras informações podem ser obtidas ao entrar em contato pelo Instagram da INCAB ou pelo e-mail incabbrasil@gmail.com.
Documentário destaca legado de conservação da anta iniciado em Teodoro Sampaio (SP)
João Marcos Rosa
Sobre a INCAB
A Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira foi criada em 1996 sob a liderança da pesquisadora Patrícia Medici. O projeto é focado na pesquisa e preservação da espécie nos cinco biomas em que ela é encontrada no país: Mata Atlântica, Pantanal (expansão em 2008), Cerrado (2015), Amazônia (2021) e Caatinga (2023).
A organização é pioneira em pesquisas científicas sobre a ecologia, saúde e genética do animal, além de atuar diretamente na mitigação das ameaças ao habitat. Ao longo de quase três décadas, a iniciativa estruturou o maior biobanco de dados do mundo sobre a espécie.
Além da produção científica, a INCAB desenvolve projetos de envolvimento comunitário por meio de comunicação, educação ambiental, turismo científico e programas de ciência cidadã.
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