Mães atípicas relatam desafios, sobrecarga e transformação na rotina após diagnóstico dos filhos na Paraíba: ‘É a minha maior luta’, diz mãe

  • 17/05/2026
(Foto: Reprodução)
Série especial mostra rotina e desafios de mães atípicas A maternidade é marcada por uma rotina de cuidados, responsabilidades e dedicação constante. Para mães atípicas, que são mulheres que cuidam de filhos com deficiência, transtornos ou condições que demandam acompanhamento contínuo, essa realidade costuma ser ainda mais intensa, com jornadas que envolvem terapias, consultas médicas, adaptação da rotina familiar e atenção permanente às necessidades das crianças. Entre desafios diários, mudanças na vida profissional e a busca por rede de apoio, mães atípicas enfrentam uma rotina que m arcada pela sobrecarga física e emocional. Em Campina Grande e Lagoa Seca, no Agreste da Paraíba, as mães Edivânia, Mônica e Andressa compartilham à Rede Paraíba experiências sobre os desafios e aprendizados vividos no cuidado com os filhos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp A história de Edivânia e do filho Davi Primeiro episódio da série 'Mães Atípicas' conta a história de uma mãe que cuida do filho Edivânia recebeu o diagnóstico de autismo do filho Davi quando ele tinha três anos, no início da pandemia de Covid-19. O momento, marcado pelas incertezas da doença e pelo isolamento social, também foi acompanhado pelo medo diante do desconhecido. “Eu recebi o laudo em fevereiro de 2020. Em março, tudo fecha. E reviver, inclusive, aquele dia é bem doloroso para mim, porque era algo tão desconhecido, e a gente tem tanto medo do desconhecido, né? E era algo desconhecido e sem nenhuma perspectiva. Então eu acho que esse talvez seja o pior dos sentimentos que eu encontrei em todo o tempo", contou em entrevista à TV Paraíba. Edivânia e o filho Davi Foto: Reprodução TV Cabo Branco Além da adaptação à nova rotina, a mãe passou a enfrentar desafios ligados ao tratamento do filho, ao preconceito em situações do cotidiano e à sobrecarga emocional causada pelo cuidado constante. Segundo ela, o desgaste psicológico chegou a afetar diretamente a própria saúde mental. “Fui para o trabalho e, chegando no escritório, eu entrei no escritório, todo mundo falou, eu resolvi o que tinha pra resolver e eu disse: 'eu vou aqui e já volto'. Eu estava com minha cabeça que parecia que ia estourar. E ali eu desço, venho para casa, chego em casa, não tem ninguém. Coloco dois algodões no meu ouvido, vou para debaixo de um edredom. Naquele dia, eu tive certeza que eu estava já entrando numa depressão . Eu lembro do dia que eu fiz isso sentada no chão da minha casa, dizendo: 'eu preciso de ajuda', detalhou. A partir da busca por apoio, Edivânia afirma que passou a enxergar a maternidade atípica de outra forma. Para a filha dela e irmã de Davi, Maria Eduarda Queiroz, a mudança de comportamento da mãe foi resultado da rede de apoio construída ao longo dos anos. “A maior diferença que eu vi foi ela, de fato, estar incluída e disponível para entrar nesse mundo, ainda que muito incerto, e ver o quanto ela se esforçou para que o meu irmão tivesse evoluído hoje, seja em terapia, seja buscando ajuda, livros, pessoas, ou ter passado por situações que talvez seja inimaginável uma mãe querer passar”, afirmou. Família de Davi Foto: Reprodução TV Cabo Branco Atualmente, além de mãe atípica, Edivânia também atua como ativista e produtora de conteúdo sobre o transtorno do espectro autista. Segundo ela, a principal meta continua sendo garantir mais autonomia para o filho. “Eu acho que meu maior sonho hoje é tornar Davi independente. Essa é a minha maior luta. E atrás dessa ativista tem essa, a mãe que quer torná-lo independente”, concluiu. A experiência de Andreza, mãe de Antony Mães Atípicas: mãe dedica a vida aos cuidados do filho com microcefalia Andreza recebeu o diagnóstico do filho Antony ainda durante a gestação, em 2015, após ser infectada pelo vírus da zika. Com dois meses de gravidez, ela foi informada de que o bebê tinha microcefalia, condição que marcou o início de uma rotina de incertezas e adaptações para a família. “Quando a doutora Adriana Melo disse assim: ‘ele tem microcefalia e a gente não sabe como é que vai ser daqui pra frente’, eu lembro que, dentro do banheiro, eu estava com minha mãe, nesse dia que meu marido não pôde ir. Dentro do banheiro do consultório eu caí de joelho. Eu chorava, eu gritava, mas não pela patologia. Era a não compatibilidade com a vida”, relatou. Andressa e Maurício Foto: Reprodução TV Cabo Branco. Antes da gravidez, Andreza cursava nutrição em uma universidade de Campina Grande. Após o nascimento do filho e a primeira internação hospitalar, ela decidiu interromper a graduação para se dedicar integralmente aos cuidados com a criança. Desde então, a rotina da família passou a ser organizada em função do tratamento de Antony, que não anda nem fala. Há mais de dez anos, Andreza e o marido, Maurício, percorrem cerca de nove quilômetros entre Lagoa Seca e Campina Grande para que o filho participe das terapias de reabilitação no Instituto Assistencial Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq). Andressa e Anthony Foto: Reprodução TV Cabo Branco No mês passado, Antony completou 10 anos. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo da última década, Andreza afirma que o maior desejo da família continua sendo celebrar a vida do filho. “Meu filho nunca foi um peso na minha vida, nunca. E nunca vai ser”, afirmou. A vivência de Mônica com o filho Davi Mães Atípicas: policial concilia trabalho e cuidados com filho com paralisia cerebral Mônica sempre sonhou em construir uma família grande. Após enfrentar dois abortos espontâneos e o nascimento prematuro do filho Davi, a maternidade passou a ser acompanhada por desafios emocionais e mudanças profundas na rotina da família. Davi nasceu com 32 semanas de gestação, sofreu hipóxia cerebral e permaneceu entubado por 27 dias. O diagnóstico de paralisia cerebral espástica veio posteriormente, durante sessões de fisioterapia realizadas na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). “Durante essa intubação, ninguém sabe se houve hipóxia lá também. Então foi essa hipóxia que causou a paralisia cerebral espástica. Só que o diagnóstico eu recebi quando eu tava fazendo fisioterapia com ele na Universidade Estadual da Paraíba. E, por acaso, as alunas estavam fazendo uma pesquisa sobre mães de PCs, e elas me pediram pra participar”, contou. 🔎 A paralisia cerebral espástica é uma condição neurológica que afeta os movimentos e a coordenação do corpo, causando rigidez muscular e dificuldade para andar ou realizar atividades motoras. É o tipo mais comum de paralisia cerebral e pode surgir após lesões no cérebro durante a gestação, no parto ou nos primeiros anos de vida. Mônica e o filho Davi Foto: Reprodução TV Cabo Branco. Após o período de internação, Davi também recebeu diagnósticos de déficit cognitivo e autismo. Desde então, ele depende de cuidados constantes da mãe, que organiza a rotina em função das necessidades do filho. Além da maternidade atípica, Mônica atua como tenente-coronel da Polícia Militar da Paraíba. Segundo ela, a necessidade de conciliar a carreira profissional com os cuidados do filho trouxe sentimentos de culpa e sobrecarga ao longo dos anos. “Durante muito tempo, ao longo desses 11 anos que Davi tem na minha vida, eu vivi essa loucura de ficar me achando uma péssima mãe, porque estava num momento de ascensão profissional e não podia abrir mão daquilo naquele momento. E depois, eu tinha que me dedicar a ele”, desabafou. Apesar das dificuldades enfrentadas pela família, o vínculo entre mãe e filho é marcado pelo afeto e pela admiração mútua. Davi afirma reconhecer o esforço diário da mãe. “Minha mãe tem bastante cuidado por mim. O meu sonho é cuidar dela. Quando eu preciso dela, ela me ajuda por tudo. Sou feliz, muito feliz por ela. Eu tenho minha família no fundo do peito”, disse. Para Mônica, as experiências compartilhadas por mães atípicas criam uma identificação coletiva entre mulheres que enfrentam desafios semelhantes. “A gente se vê representada nas histórias umas das outras. O que eu quero pra Davi é viver o mundo lá fora”, concluiu. Mães reunidas Foto: Reprodução TV Cabo Branco. Maternidade atípica A realidade enfrentada por mães atípicas vai além das histórias de Edivânia, Andreza e Mônica. Desde o momento do diagnóstico dos filhos, muitas mulheres passam a lidar com uma sobrecarga emocional, física e financeira marcada por incertezas e mudanças na rotina. Segundo a psiquiatra Isabella Florentino, o processo de receber um diagnóstico costuma ser acompanhado por sentimentos semelhantes aos vividos em um luto. “Como mãe, ela fica impactada. Passa por fases de um luto, receber um diagnóstico desse tipo. A negação, a raiva, e é preciso que passe mesmo por esses processos até chegar na aceitação. Então vai ser muito importante que ela tenha um apoio psicológico nesse período para poder ajudá-la a atravessar essa fase”, afirmou. Mesmo após a fase inicial do diagnóstico, especialistas apontam que mães atípicas, principalmente aquelas sem rede de apoio ou independência financeira, estão mais suscetíveis ao desgaste emocional. Para a neuropsicóloga Débora Paz, fatores como preconceito, falta de informação e ausência de suporte adequado contribuem para esse cenário. “Quando ela vai sair com essa criança, ela em casa com essa criança, ela tem um nível de atenção muito maior, porque a criança pode se machucar, ela pode se autolesionar, a depender do tipo, do nível de suporte de autismo que ela tenha. É uma mãe que socialmente ela pode se isolar. Ela prefere ficar com essa criança por constrangimento ou porque a sociedade não entende muitas vezes. Então, é uma mãe que tem um risco muito maior de ter ansiedade, depressão, burnout materno”, explicou. Além da sobrecarga emocional e da rotina intensa de cuidados, o impacto financeiro também faz parte da realidade de muitas famílias. Segundo a especialista, os custos com terapias, tratamentos e acompanhamento especializado podem aumentar ainda mais a pressão sobre as mães. “Fora a questão financeira, que muitas vezes o SUS não vai dar todo o tratamento que essa criança precisa, e aí ela vai ter que ter esse recurso, e aí problemas financeiros. Então não é só... não é a criança que é o problema, é toda a rede de apoio envolvida para essa mãe”, complementou a neuropsicóloga. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba

FONTE: https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2026/05/17/maes-atipicas-desafios-rotina-diagnostico-filhos-paraiba.ghtml


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